• Detecção Precoce do Câncer e Riscos Associados (nº 12 - Jun/2009)
Numerosos exames para a detecção precoce do câncer são oferecidos à população saudável (sem sintomas relacionados ao câncer), motivados pela crença de que quanto mais cedo se detecta um câncer ou lesão pré-maligna, mais efetivo será o tratamento em prolongar a vida e minimizar os danos causados pelo tratamento. Oferecer exames para identificar o câncer precocemente ou suas lesões precursoras em indivíduos sem sintomas é chamado de rastreamento.
Embora este modelo tenha um grande apelo, muitos exames são oferecidos sem nenhuma prova dos benefícios e sem uma análise dos potenciais efeitos adversos. O efeito adverso mais comum é o exame falso-positivo, isto é, são resultados positivos dos exames quando na verdade o indivíduo não apresenta câncer ou lesão precursora.
As taxas de resultados falso-positivos para um determinado exame de rastreamento do câncer têm sido bem documentadas, entretanto, as taxas acumuladas de resultados falso-positivos de exames repetidos em intervalos regulares é ainda pouco estudada.
Na edição de maio/junho de 2009 da revista científica Annals of Family Medicine foi publicado um artigo sobre a incidência acumulada de resultados falso-positivos em indivíduos submetidos a exames de rastreamento do câncer num período de três anos.
A população alvo do estudo foram os indivíduos participantes do estudo PLCO Screening Trial iniciado em 1993 e finalizado em 2001 nos EUA. Cerca de 70 mil homens e mulheres foram acompanhados num período de três anos realizando dosagem anual de CA-125 e US transvaginal para câncer de ovário, RX de tórax anual para câncer de pulmão, sigmoidoscopia a cada 3-5 anos para câncer colo-retal e toque retal e PSA anual para câncer de próstata.
Exame falso-positivo foi considerado como aquele que após três anos do resultado positivo não diagnosticou-se o câncer. Foram definidos os critérios de resultado positivo para cada exame e também classificou-se os procedimentos diagnósticos pós rastreamento em minimamente invasivo, moderadamente invasivo e cirurgias abdominais, pélvicas ou torácicas. Entende-se como invasivo, qualquer procedimento que envolva a punção ou incisão da pele ou inserção de um instrumento ou material estranho no interior do corpo.
Após 14 exames (aproximadamente 4 anos), o risco acumulado de ter pelo menos 1 exame falso-positivo foi de 60% para os homens e de 48.8% nas mulheres.O risco de submeter-se a um procedimento invasivo foi de 28.5% para os homens e 22.1% nas mulheres. O risco acumulado de um indivíduo apresentar um exame falso-positivo aumenta com o número de exames realizados da mesma forma que o risco de realizar um procedimento invasivo aumenta com o número de exames realizados.
Diversas sociedades médicas e ONGs recomendam exames de rastreamento para câncer. As recomendações são variadas e tendem a variar entre os diversos sistemas de saúde. O potencial destes exames em causar um malefício (falso-positivo) está diretamente relacionada à quantidade de exames e a repetição periódica dos mesmos.
Portanto, é preciso analisar com muito cuidado as recomendações para rastreamento do câncer de forma a oferecer procedimentos com menor risco possível e maiores benefícios. Nos EUA, um relatório do Institute of Medicine (IOM) de 1999 apresenta dados preocupantes: cerca de 44.000 a 98.000 mortes por erro médico por ano. Outras estimativas no final da década de 90 apontam para cerca de 225.000 mortes por ano por causas iatrogênicas (relacionadas a intervenções médicas).
O artigo em questão pode ser acessado no site www.annfammed.org
Boa leitura!
Ronaldo Corrêa
Oncologista/Sanitarista